Intelectuautismo

O Blog jornalístico sobre Autismo

Letícia, uma órfã pra lá de especial

Quem passa em frente aos portões azuis da casa de número 120, da Rua Guaipá, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, não imagina quantas histórias emocionantes há para se contar dos seus moradores. Trata-se do abrigo “Cantinho que encontrei”, onde vivem vinte e uma crianças órfãs. Entre estas, Letícia Gusmão de Souza, uma garotinha esperta que não para um minuto sequer.

Letícia tem sequelas de autismo. Segundo os médicos, foram causados pelo histórico prematuro vivido logo que veio ao mundo, em que teve pressa para chegar. Nasceu de cinco meses e meio. Não teve cuidados especiais nos próximos meses de vida, quanto mais intervenções terapêuticas necessárias. De cor negra, olhos puxados e cabelos encaracolados, tem traços característicos da família paterna.

O diagnóstico do distúrbio, quando precocemente identificado, traz progressões que podem desenvolver o autista a levar uma vida mais próxima ao desenvolvimento considerado normal. Este diagnóstico, logo na infância, levou anos para que pudesse ter a precisão adequada, uma vez que os sintomas podem ser confundidos com outros tipos de distúrbios.

O autismo infantil é apenas um subtipo de uma categoria mais ampla de distúrbios, conhecidos como transtornos globais ou invasivo do desenvolvimento. Este grupo é composto por cinco destes transtornos: o autismo infantil, a síndrome de Asperger, síndrome desintegradora da infância, a síndrome de Rett e outros transtornos não especificados. Cada uma com suas características e sintomas próprios, sendo que todos possuem anormalidades de interação social e comunicação comuns. “Ser autista não significa não ser humano. Significa ser estranho. Significa que o que é normal para outras pessoas não é normal para mim, e o que é normal para mim não é normal para outros”, define Jim Sinclair, especialista em desenvolvimento infantil e processos de reabilitação.

Sem ter sido reconhecida pelo pai, fora registrada apenas com o nome da mãe, a qual perdeu alguns meses depois do seu nascimento, em um acidente de carro. Por sofrer maus tratos em sua família materna, foi parar em um abrigo, onde ficou por pouco tempo. Não justo pelos mesmos motivos: maus tratos.

Aos 4 anos chegou ao Cantinho, ainda sem andar. Hoje, com 9 anos, é onipresente, corre pelos quatro cantos da casa. Seu nome é ouvido de vez em quando:

- A Letícia abriu o portão!

- Tia, a Letícia bateu no Pedro.

Tias - são como são conhecidas as senhoras que cuidam da “Casa”, carinhosa nomenclatura dada ao orfanato. O que não é nada estranho. Quem cruza os portões, dependendo do horário, sente o cheiro da comida das panelas, vê as “tias” de chinelo, andando despenteadas, as crianças espalhadas brincando, os móveis simples e bem arrumados, roupas estendidas nos varais, a máquina de lavar ligada… E aquela sensação boa de poder se sentir a vontade.

Quem nos dá a entrevista é Rosana de Oliveira, a coordenadora da casa; ou apenas tia Rosana. Uma senhora jovem, corpulenta que, como as demais, se veste como uma mãe de família. Tem voz macia, cuidadosa e atenciosa. Como é a única que dirige a perua escolar que leva a criançada para todos os cantos, passou a ficar mais tempo que as demais. É ela também que acompanha Letícia na visita mensal ao Hospital das Clínicas, onde faz um tratamento psiquiátrico e recebe seus remédios gratuitamente.

No mês passado, começariam um tratamento com animais, em que Letícia teria seu próprio cachorro de estimação - não deu certo por questões logísticas. Também estão nos planos do Hospital um treinamento com identificação de cores e objetos, com Letícia e as tias, no qual ela será estimulada a pedir o que precisa. A garota está numa idade decisiva: segundo um estudo da pesquisadora e psicóloga Deborah Fein, da Universidade de Connecticut, realizado com 58 crianças autistas, a taxa de recuperação das crianças ao distúrbio depois de anos de terapia estaria na faixa dos 10% ao 20%. E os vestígios de melhora se apresentariam justamente aos 9 anos.

A pequenina magrela não tem problemas para comer. Come de tudo e por isso tem uma saúde de ferro. Sua resistência física é muito boa e raramente fica doente. Adora vermelho. Beterrabas são sempre bem vindas no seu prato. A tia conta que, por conta dessa aptidão pela cor, “já colocou catchup no prato para que ela comesse”.

Até agora, sua comunicação é feita por meio dos sons que emite e das manifestações através de expressões corporais para exprimir os seus desejos. Puxa pela mão até o bebedouro se quer água; direciona-se ao fogão se quer comida; se for para trocar as fraldas, arranca as roupas. Na hora do banho gira em volta do banheiro.

Esta comunicação é considerada um avanço, que veio só depois de estar a um ano e meio frequentando a escolinha para crianças especiais que fica do outro lado da rua. Lá, aprendeu a sentar para comer e a escovar os dentes. Ultimamente, está sendo treinada para sentar-se à privada e fazer suas necessidades. Sair das fraldas será um grande passo.

Letícia faz parte dos 20% dos casos femininos portadores de autismo. De forma geral, o autismo pode ser definido como um distúrbio de desenvolvimento de base neurológica que causa déficit em várias esferas - mental, social e emocional -, que ainda não tem causa ou cura conhecida, mas que já conta com tratamentos eficazes.

Comportamentos estereotipados são perceptíveis nas brincadeiras dela. Crianças com autismo geralmente pulam no mesmo lugar, abanam as mãos, se balançam para frente e para trás, ou apresentam movimentos repetitivos. É importante que sejam percebidos pelos pais o quanto antes; procurar sinais como falta de atenção ao contato visual ou problemas na forma de se comunicar para acelerar o diagnóstico.

Letícia viveu algumas fases características desde que chegou à Casa. A primeira foi a da garrafa pet, quando ficava muito excitada ao ver o objeto. Em seguida veio à fase do apego ao papelão. Agora, trocou o material para brincar com fios e anda pela casa esticando um cordãozinho de náilon que vai até a cintura. Sorri e, às vezes, o estica interruptamente. Dorme algumas noites abraçada ao tênis para brincar com o cadarço.

A pequena garota é tratada como qualquer outra criança do abrigo, sem regalias especiais. Dorme na casa das meninas com as outras. Casa das meninas é o espaço dividido pela área central, onde dormem as treze garotas; do outro lado, fica a casa dos meninos, onde ficam os oitos garotos. A faixa etária vai do zero aos dezesseis, sendo que só entram crianças com idade abaixo dos dez anos. Todos trazem histórias marcantes de abandono e até mesmo intrigantes, como casos de abuso sexual. Por esta questão, as senhoras não aceitam a presença de homens no trabalho com os órfãos, por receio de um contato mais intimista com as adolescentes que vivem lá. Para auxiliar na educação, orações são feitas rotineiramente. A maioria das tias é evangélica.

Durante um passeio na entrevista pela casa dos meninos, o pequeno Pedro chora no colo de outra criança (lá é comum ver uns cuidando dos outros, a própria Letícia estava sendo alimentada por outro garoto pouco maior que ela mais cedo). A garotinha informa o motivo do chororô: “A Letícia bateu nele”.

E a tia responde com calma: “Ele vai aprender a se esquivar dela!”

Na casa, a agressividade natural nas brincadeiras de Letícia é conhecida e deve se tomar cuidado com isso. Brincadeiras que envolvem violência são as suas prediletas. O gato, uma das suas últimas vítimas, se pudesse falar… A agressão, ou a auto-agressão, faz parte do quadro comportamental de muitos autistas quando precisam se comunicar. Letícia certa vez foi adotada por uma família, mas por conta deste comportamento não se adaptou ao novo lar e ficou menos de uma semana com ela. No Cantinho, todos já conhecem esse aspecto indelével em Letícia. Entretanto, isso não a exclui das brincadeiras; pelo contrário, ela é a mais requisitada nas festinhas mensais de aniversário da casa pela farra que faz. “Ela fica enlouquecida, enfia a mão no bolo, bate palmas, dá risadas. Parece até que a festa é pra ela”, conta tia Rosana.

O autista não apresenta características físicas aparentemente diferenciadas. As imagens populares e os estereótipos vistos nos filmes são apenas pequena parte do distúrbio.

O pai biológico de Letícia já apareceu por lá, fez aproximação e manteve por algum tempo visitas constantes. “Ela sorria muito quando estava com ele, davam as mãos e passeavam pelas proximidades”, relembra Rosana.

O reconhecimento ainda não foi realizado judicialmente. Ele não compareceu ao teste de DNA marcado e também não demonstra condições de requerer a guarda da filha. Os cuidados especiais com a deficiência, talvez sejam na opinião da tia Rosana, o fator que impede o faxineiro que já constituiu outra família a levar Letícia. Nas palavras de Ernest Christian Gauderer, autor do livro Autismo e Outros Atrasos do Desenvolvimento e também autista, “os pais vivenciam esses filhos não só como tragédia, mas como se o filho fosse objeto, sem calor humano. ‘Não me quer, não me procura’, dizem os pais”. Enquanto isso, a morada especial do Cantinho segue cercada de carinho e atenção de todos da casa, até o gato.

*Para quem quiser ajudar ou apenas conhecer Letícia, a tia Rosana e a criançada do Cantinho, basta chegar ao endereço e tocar a campainha, se puder ligar antes, melhor. A casa fica aberta todos os dias das 8h às 17h. O endereço é Rua Guaipá, 120 – Vila Leopoldina. O telefone é 11 3641-9199.

4 comentários:

Anônimo 24 de junho de 2009 22:50  

Gostei muito do blog. Muito bom. Só uma coisa, o safado do Falabela não teve nenhuma crise de consciência, ficou foi apavorado com a quantidade de e-mails enviados pelos grupos de autismo do Yahoo!

Anônimo 3 de abril de 2013 15:56  


ÉRA maravilhoso esse abrigo nois tinhamos de tudo uma familia uma vó que cuidou de nois uma casa nois eramos uma familia era perfeita a nossa casa até chegar Uma funcionaria chamada rosana que só sabia pensa nela importava os alimentos que nos ganhavamos para casa dela uma mulher egoista que agredia agente amor carinho nois recebiamos só antigamente quando as funcionarias eram tia lurdes , viviam, vó francisca , elas sim cuidavam das crianças de nois né como se fossemos filhos dela nois tinhamos de tudo com ela éra um abrigo muito bom maravilhoso morei la dez de criança até a Rosana chegar se juntar com a Nadia e tira a felicidade do rosto de cada criança machucavam nois pegavam nossas doaçoês olha quem esta aqui falando isso é uma adolecente que morou no abrigo dez de criança eu falo oque vi foram evidenciasa que muitos na nossa epoca de 2009 viu e exigimos justiça a rosana é uma ladra que se diz né quando poim a mão nas coisas de pobres crianças orfãs mais Deus ve tudo e éla pagara a justiça sera feita .

Bruna Peccin

Anônimo 5 de abril de 2013 22:30  

Nossaaaaaaaaaaa o pau ta comendo mesmo tem pessoas que esta lhe dando com essa mulher e nao sabe o monstro que ela é quando se ferrar vai abrir os olhos essa vaca eu ja ouvi fala demais tenho odio dela pke ela maltrata quem mais precisa e esse abrigo esta fechado graças a Rosana de oliveira essa vadia vai pagar...e tem uma menina que eu conheço e nao quero citar nomes que ja sofreu muito na mão dela e quer ver justiça tambem.

Isac de Souza Lima 10 de agosto de 2013 14:47  

Conheci a casa, criei um projeto junto a empresas para que as crianças fossem beneficiadas, inicialmente era um lindo projeto. Mas quando comecei a intensificar o contato, percebi realmente algo estranho. Hoje em dia sinto falta das crianças. Adorava passar um tempo com elas. Lembro do rostinho de cada uma.

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Neste blog você, internauta, encontrará informações relevantes acerca do autismo, um dos grandes distúrbios da comunicação e da socialização, ainda uma incógnita para a Ciência e vítima por muitas vezes de preconceitos da sociedade.

O objetivo desta página é apresentar um trabalho acadêmico de jornalismo sobre os autistas, baseado em uma grande reportagem multimídia. Enquanto o trabalho é elaborado, Intelectuautismo une diversos materiais coletados na rede sobre o tema tratado.

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